Este ano, a Adega Cooperativa de Vidigueira celebra 65 anos. Como é que este percurso moldou a vossa identidade enquanto marca do Alentejo?
A Adega Cooperativa foi fundada em 1960 como resultado da vontade dos produtores da região manterem não só manterem viva, como darem uma estrutura económica à produção vitivinícola da região, cuja herança data da presença romana na região.
Há três marcos importantes neste percurso de 65 anos.
Um deles é o crescimento, com muita força, no canal moderna, nomeadamente de marcas como Vila de Frades, Conde da Vidigueira, Vidigueira Premium, que se tornaram presença assídua na mesa dos portugueses.
O segundo foi o caminho para a certificação de sustentabilidade, que começou há 10 anos: em 2015. Foi, aliás, uma feliz coincidência que tenhamos lançado em 2025 o nosso primeiro vinho com certificação de produção sustentável, por altura da celebração dos 65 anos da Adega Cooperativa de Vidigueira, Cuba e Alvito.
O último marco é a internacionalização, um caminho iniciado em 2023, e que tem tido um apresentado resultados muito promissores. Apesar de ainda ser muito insípido na faturação total da Adega, este ano já deverá pesar em torno de 5% a 10%, se tivermos em conta que até 2023 pesava em torno de 1%, É possível compreender a tendência de franco crescimento.
A internacionalização é, hoje, um dos grandes desafios e oportunidades para os produtores nacionais. Como tem sido o caminho da Adega da Vidigueira no mercado externo?
A nossa primeira abordagem passou por procurar mercados onde a quota de mercados dos vinhos alentejanos é mais alta. Mercados como o Brasil, Angola e os mercados com forte presença da diáspora portuguesa são mercados naturais para a Adega da Vidigueira. Numa segunda fase procurámos mercados mais vanguardistas, em que o perfil dos vinhos procurado é mais casual – com rótulos mais joviais e perfis mais polidos ou adamados -como o Estados Unidos, o Canadá, a Holanda, a Alemanha ou os nórdicos. Para estes, aproveitámos uma marca que estava presente desde há muito: o Vdg. Com o apoio da Wine Crush, apresentámos uma imagem nova, fresca, que apesar de inspirada no Vasco da Gama (Primeiro Conde da Vidigueira) é disruptiva e serve para abordar consumidores que, com as nossas marcas tradicionais, não alcançaríamos.
Quais são atualmente os principais mercados de exportação da Adega?
Brasil, Canadá, Estados Unidos, Suíça e Holanda.
E há novos destinos estratégicos em vista?
No segundo semestre de 2025 e em 2026 vamos focar no Oriente, que era algo que ainda não estava no nosso foco durante 2024 e a primeira metade do ano de 2025. Queremos reforçar a presença em alguns mercados como a China, mas também iniciar atividade noutras paragens, das quais destaco a Índia.
“A Vidigueira não se define por medalhas, mas as medalhas são um comprovativo de qualidade de terceiros’”
O vinho Vidigueira Branco 65 marca não só um tributo aos 65 anos da adega, mas também uma aposta na sustentabilidade. Como é que a responsabilidade ambiental influencia a vossa estratégia de internacionalização?
Nós somos a segunda Adega Cooperativa do Alentejo a ter esta certificação. Para nós é um marco importante, mas que não termina aqui. Estamos a fazer o caminho para aumentar a produção sustentável, onde queremos chegar a 5% do total da nossa produção em breve – cerca de 400 mil litros. Também estamos a lançar para o mercado o primeiro vinho com certificação biológica em breve.
Hoje em dia, em mercados como na Suécia, se quisermos fazer uma proposta para um tender, é exigido, na larga maioria dos casos, a certificação WASP, o Wines of Alentejo Sustainability Programme. A Finlândia também tem esta certificação como critério preferencial. O Canadá também tem vindo a privilegiar crescentemente os programas de sustentabilidade, e, portanto, não há qualquer dúvida que no caminho da internacionalização, a sustentabilidade e a produção, e, eventualmente, a produção biológica, são chave para acrescentar valor e para conseguir alcançar níveis de prospeção maior. No fundo, reflete-se depois numa demanda maior, o que nos permite, por sinal, ou crescer em vendas, ou crescer em preço médio.
Permite-nos também outro objetivo que é fugir à corrida ao fundo no preço médio que Portugal e o Alentejo, em particular, têm sofrido nos últimos anos. E parece-me que o caminho para que esta ‘fuga’ seja bem sucedida passa pela sustentabilidade enquanto diferenciação e outras formas de diferenciação que consigamos trazer à mesa, como a produção de vinho de Talha.
A Medalha de Ouro no Città del Vino 2025 para o Vidigueira Reserva Tinto 2021 foi um reconhecimento importante. Qual é a importância destas distinções na vossa presença e aceitação nos mercados internacionais?
É importante de duas formas, em primeiro lugar reflete-se nos vinhos já em ponto de venda e com capilaridade. Uma medalha no ponto de venda ajuda o consumidor a procurar escolher um vinho face a um vinho não medalhado. É uma oportunidade que temos, nesse caso, do consumidor provar a nossa qualidade.
Outra forma, é melhorar os meus argumentos no momento da prospeção. Naturalmente, que a Vidigueira não se define por medalhas, mas as medalhas são um comprovativo de qualidade de terceiros, que ajudam a aproximar os compradores da história da Adega e da região.
“[Queremos] levar a Vidigueira para o Mundo. Através da unidade internacionalização da Adega, que quando exporta, exporta uma região. “
A presença da Adega da Vidigueira já foi confirmada na SAGALEXPO 2026. O que motivou esta decisão e o que esperam alcançar com a participação no próximo ano?
A SAGAL é uma exposição que vai completamente em linha com a estratégia que definimos. Eu gostaria, para a próxima SAGAL, abrir alguns mercados novos, que não tínhamos ainda aberto. Esta SAGAL teve muito boa reação. Houve mercados novos que estamos a firmar. Sabemos que, por exemplo, houve clientes em linha com a nossa estratégia de internacionalização que não conseguimos contactar. Queremos focar mais nesses mercados.
Se tivermos que escolher, vamos focar na Ásia, reconhecendo que a o Oriente aumentará o seu peso económico no futuro. Para além do mais, a Vidigueira, com a sua ligação ao Conde da Vidigueira, Vasco da Gama, tem uma ligação com o Oriente, seria contra a nossa natureza não o explorar.
Que novidades ou produtos poderão ser destacados na vossa presença na SAGALEXPO 2026? Estão a preparar algum lançamento específico?
Vamos aprofundar os nossos três eixos fundamentais: a casta Antão Vaz – a casta branca do Alentejo e que encontra na Vidigueira a sua melhor expressão; a ligação ao Conde da Vidigueira, Vasco da Gama, com as marcas que exploram este imaginário, como o Navegante, Nauta, Vila dos Gamas, Tapada dos Gamas. E última dimensão, que é herança romana da produção de vinho de talha, com o seu epicentro em Vila de Frades. Vamos reforçar estes três eixos com o aprofundamento da comunicação da sustentabilidade, com as nossas distinções e os nossos eventos, dinamizados pela nossa unidade de enoturismo.
Mais que um novo produto, o que gostaríamos de apresentar para o ano seria uma nova forma de comunicar a adega e a região da Vidigueira. Já este ano tínhamos esta intenção, depois não possível executá-lo. Queremos trazer a experiência da Vidigueira para os visitantes do SAGAL: as talhas, o cante alentejano, a gastronomia.
Por fim, que visão têm para a Adega da Vidigueira nos próximos 10 anos?
Levar a Vidigueira para o Mundo. Através da unidade internacionalização da Adega, que quando exporta, exporta uma região. Através do nosso enoturismo, que quando abre as portas, cria embaixadores nos mais diversos países. As nossas redes sociais permitem-nos cristalizar estas dinâmicas. Sabemos o potencial, estamos a trabalhar para a concretizar.

