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“Portugal produz com qualidade e preços concorrenciais”

20 de Abril de 2014

Pelas mãos dos pais chegou a França ainda criança. E, pouco depois, aos 13 anos, com o falecimento do pai, começou a trabalhar nas obras para ajudar a família. Hoje, passados 53 anos, o empresário Valdemar Francisco, natural de Leiria, orgulha-se de ter erguido a Holding Francis & Co, que factura 80 milhões de euros por ano nas áreas do imobiliário e construção civil.

Veja Portugal – Em que medida tem a sua empresa colaborado com outras empresas portuguesas que querem exportar os seus produtos ou internacionalizar-se?

Valdemar Francisco – Somos um grupo de promoção imobiliária e há mais de 25 anos que trabalhamos em conjunto com as empresas portuguesas sediadas em França, no que respeita à mão de obra, e empresas portuguesas sediadas em Portugal, no que respeita ao abastecimento de matérias-primas, como cozinhas, janelas, madeiras e pedra.

Quais as oportunidades de investimento que identifica como boas para as empresas portuguesas?

E reconhecido em França e noutros países da Europa que as empresas industriais portuguesas conseguem produzir com qualidade e a preços inferiores ao mercado. No entanto, de uma forma generalizada, ainda existem muitas reticências no que respeita ao rigor dos prazos de entrega e aos acabamentos dos produtos, razões pelas quais não conseguem manter uma relação duradoura nos mercados europeus. E necessário que tenham muita atenção a estes problemas se pretendem estabelecer relações duradouras com clientes internacionais. Para melhorar estes pontos, poderão associar-se a empresas ou associações nos mercados em questão, que as possam aconselhar e proporcionar ocasiões de negócio.???????

Quais são, em sua opinião, as medidas mais úteis para Portugal sair da crise?

Na última década o crescimento económico português esteve focado no investimento público na construção civil nacional, ou seja, em bens não transaccionáveis e não exportáveis. A necessidade de uma intervenção externa veio agravar a contracção da economia, no que respeita ao investimento, mas essencialmente ao consumo, com a redução dos salários, aumento de impostos, aumento do desemprego e naturalmente a diminuição da confiança e da qualidade de vida dos portugueses.

Dado que Portugal não dispõe de instrumentos de política monetária, só resta por em prática uma política agressiva que permita atrair o Investimento externo através da baixa do IRC e diminuição da burocracia.

Este Investimento deve ser orientado via a Industria exportadora, que fomentará o crescimento económico através do aumento das exportações, diminuição do desemprego, aumento do consumo e das receitas fiscais a prazo. A promoção do turismo também seria uma boa iniciativa para o crescimento económico. Em França raramente ouvimos falar de Portugal ou contrário de outros destinos turísticos, como a Grécia e a Irlanda, que fazem fortes campanhas publicitárias na televisão.

Só com crescimento económico Portugal conseguirá respeitar os deficits previstos pela Troika e reduzir a sua divida publica. Para crescer, necessita de mais indústria, de mais exportações e de mais emprego.

A pior forma de emigração é a feita por necessidade económica. Cabe a Portugal por em prática políticas que permitam o crescimento económico e que travem esta nova emigração de jovens que deixam as suas famílias para procurar emprego noutros países, como nós fizemos nos anos 1960 e 1970.

Sente, enquanto empresário na diáspora, algum apoio do Governo e das autoridades portuguesas?

Pelos últimos dados conhecidos, Portugal tem cinco milhões de emigrantes, 50% da população residente, sendo que França regista mais de 1,5 milhões de emigrantes.

Esta força nunca foi bem aproveitada em prol da dinamização da indústria portuguesa, simplesmente porque nunca houve qualquer interesse.valdemar francisco

Em período de crescimento, os agentes económicos e políticos nacionais nunca manifestaram um grande interesse em maximizar as relações económicas com a comunidade emigrante portuguesa. Os únicos interesses visíveis limitavam-se às importantes remessas (2,5 mil milhões de euros por ano), à dinamização da construção civil e do turismo.

Esta crise trouxe uma abertura de espírito à sociedade portuguesa. Os agentes económicos e políticos nacionais começaram a dar a devida importância estratégica à comunidade emigrante espalhada por todo mundo, na sua capacidade de absorver e dinamizar as exportações e na possibilidade de captar investimento externo para Portugal. Agora, é preciso criar mecanismos que possam perpetuar esta dinâmica e incentivem sinergias entre residentes e emigrantes.

Uma boa medida seria a criação de incentivos fiscais para a compra e remodelação de edifícios dos centros históricos das principais cidades portuguesas, concedidos às empresas detidas por emigrantes, que têm uma forte experiência nesta área nas principais cidades da Europa.

“O maior sucesso foi ter construído com a minha mulher uma família coesa”

Qual foi o seu percurso desde que chegou a França até hoje?

Ainda criança, acompanhei os meus pais, que chegaram a França em 1960. Inicialmente instalámo-nos em Villers sur Marne e pouco depois mudámo-nos para Champigny sur Marne. Frequentei a escola primaria em França e aos 13 anos, com o falecimento do meu pai , comecei a trabalhar na construção civil para ajudar a minha família.

Posteriormente fiz estudos de economia e fundei a minha própria empresa de construção, a Tradi-art, em 1982.

A minha mulher, antiga bancária e os meus dois filhos, engenheiros civis, fazem também agora do nosso grupo familiar encabeçado pela Holding Francis & Co, que é composta por diversas sociedades de construção civil, promoção imobiliária, gestão de frotas, sociedades civis imobiliárias, agências imobiliárias, entre outras.

Quais as maiores dificuldades que tem sentido e os momentos de maior sucesso?

As maiores dificuldades relacionam-se com a integração num novo pais, nova língua e cultura. As nossas condições de vida eram muito difíceis em comparação com as dos nossos colegas de escola de origem francesa.Valdemar francisco a

A vergonha e sentido de inferioridade eram sentimentos comuns e partilhados pelos emigrantes, associados a uma imagem nem sempre positiva que os franceses tinham dos emigrantes em geral. Apesar de tudo, os portugueses sempre foram considerados pessoas de bem e trabalhadoras.

O maior sucesso da minha vida foi ter construído, com a minha mulher, uma família coesa, termos proporcionado uma boa educação aos meus filhos e conseguido um sucesso profissional e material que permitisse boas bases de lançamento para que os meus filhos possam seguir o seu caminho, sem terem de passar as privações e dificuldades por que passei.

Já deleguei nos meus filhos parte da gestão do grupo, o que me tem proporcionado mais tempo para participar na criação de uma associação de amigos de infância de Champigny – que já conta com mais de 150 participantes, alguns que não se viam há mais de 50 anos – e na realização de um documentário televisivo sobre a emigração portuguesa em França desde os anos 1960.

Perfil

Anos na emigração: 53

Nome da empresa: Holding Francis & Co

Cidade/região/país: Saint Genevieve de Bois, Paris, França

Sector de actividade: imobiliário e construção civil

Número de empregados: + 120

Volume de negócios: + 80 milhões de euros

Investimentos em Portugal: em estudo

 

 

 

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